O “LOCAL” NA CULTURA – sobre a maldição dos porcos
“Com efeito, toda sociedade implica em dois aspectos. Uma sociedade é simultaneamente uma máquina, e o trabalho que fornece essa máquina. Enquanto máquina a vapor, fabrica entropia. Mas enquanto considerada como um motor, fabrica ordem. Esse aspecto – ordem e desordem – corresponde, em nossa língua, a duas maneiras de olhar uma civilização: de uma parte, a cultura, de outra parte, a sociedade; a cultura designa o conjunto de relações que, em dada forma de civilização, os homens mantêm com o mundo, e a sociedade designa mais particularmente as relações que os homens mantêm entre si… …podemos dizer que um domínio social qualquer – se chamamos uma sociedade de um domínio social – fabrica entropia, ou desordem, como sociedade, e que fabrica ordem, como cultura. É essa relação inversa que, parece-me, traduz a diferença entre o que chamamos primitivos e civilizados”. Claude Lévi-Strauss O processo civilizatório está diretamente relacionado à capacidade que determinado grupo social possui para produzir ações, em um mundo de complexidades variadas, que minimizem, de alguma forma, as tensões geradas em seu seio. Essas ações são estimuladas e conduzidas por mecanismos que, em seu conjunto, constituem o processo educacional desse referido grupo social. Quanto mais complexas as relações e mais amplas as suas conexões possíveis – tanto para seu contato com outras culturas, bem como internamente ao grupo – fazem-se necessárias estruturas educacionais mais sofisticadas que dêem conta de preparar os indivíduos para esse tipo de complexidade. Em se tratando de ações no campo educacional, suas práticas e métodos, seu planejamento, o estudo de suas estruturas ou qualquer olhar que estabeleçamos para as questões educacionais, sempre estaremos imersos em um ambiente dominado pela cultura. Enfim, a cultura, em seu termo geral ou conjunto, é o palco onde se produz os sentidos que movem todo o fazer educacional. Ela está relacionada a uma espaço-temporalidade, portanto, necessita possuir um local – o lugar da cultura – onde seus actantes produzem as representações. Por sua vez, essas representações necessitam ser apresentadas, em algum lugar e tempo, para gerarem os significados necessários – que regerão as relações possíveis no contato entre grupos humanos distintos – e sua subseqüente interpretação, produzindo, assim, todo discurso civilizatório. Dada a complexidade do tema, faz-se necessário estabelecer aprioristicamente algumas linhas de condução que venham a organizar um determinado olhar sobre distintos aspectos das estruturas que produzem sentidos para a educação, como o é a questão da identidade para a estruturação do indivíduo e, quando indivíduo em contexto, aquilo que, pelo uso, se nominou como ‘identidade cultural’**, decorrendo, daí, o necessário movimento no intuito de preservar a diversidade de origem, quase como categoria indispensável para a compreensão do ambiente e da natureza humana. Portanto, necessário um olhar sobre a ‘identidade na cultura’, sobre a pluralidade cultural e subseqüentes movimentos de organização e preservação, nessa área, um movimento “em defesa da diversidade cultural”, entendendo-se os princípios de pluralidade e diversidade. Necessário, também, um estudo que parta do específico para se conseguir a construção de um entendimento geral em contexto de relações culturais, mantendo-se o consenso de pluralidade como condição fundamental para novas produções de sentido. Todo corpo social é detentor de estruturas de relações onde são apresentadas as condições mínimas para o florescimento do processo autopoiético que alimenta um sistema de encontros em que seus participantes projetam um escopo que contém nichos actanciais. Isto é, antecipação de espaços onde esses sujeitos prevêem modos de atuação, sempre inseridos no ambiente projetado para o encontro: ‘o local da cultura’. ……………………………………………………………. Inserir projeção=identidade e contaminação=cultura. Nas relações entre estruturas culturais ou entre pessoas, os problemas não residem na ausência de uma identidade, mas na qualidade de sua estruturação, ou seja: não é a falta de identidade que faz com que parte dos integrantes do corpo social, nas suas diferentes esferas, deixe de participar de forma ativa na estruturação do “corpus”. Esses integrantes, tanto na sua forma pessoal como coletiva, se postam perante ou entre o grupo maior e não realizam o processo de ‘identidade na cultura’, necessária para estruturar a autopoiese coletiva, não pela ausência de uma identidade, mas por problemas de estruturação interna; uma questão de visibilidade: o querer mostrar-se, mas também o poder mostrar-se. Neste sentido, a falta de qualidades próprias a esse exercício, tanto para o sujeito individual como para o coletivo, pesam ao revertem como deficiência nas relações, tanto para as intraculturais, como também para as que ocorrem entre diferentes culturas. Conjuntamente a uma qualidade nessa ordem interna, a ‘identidade na cultura’ necessita possuir o seu “local” que não é necessariamente um determinado espaço físico, mas sim, um conjunto de estruturas que conformam a cultura e a liberam para as conexões possíveis, onde suas partes se referenciam e para o qual sempre retornam diante de qualquer necessidade de reestruturação. Homi K. Bhabha (O Local da Cultura – Ed. UFMG – 1998), trata com precisão desse assunto, comparando o conflito vivido na Índia tanto pelo colonizador britânico como pelo nativo diante de uma nova estrutura que aparece na implantação do vice-reinado da Índia, na qual o indiano não conseguia se referenciar e tampouco o próprio britânico, dada a complexidade formada pelo conjunto das culturas locais, ao qual denomina de “entre-lugar” – ou aquilo que não é nem “lugar” e tampouco “não-lugar”. Dadas as peculiaridades locais e históricas, o brasileiro – como termo geral – vive culturalmente, ainda, nesse “entre-lugar”, num eterno sonho de retorno a um determinado lugar, tanto no que diz respeito ao nativo que o europeu encontrou por estas bandas, como para o próprio europeu que para cá veio com o intuito de auferir lucros e não plantou as bases para a criação de um local. Em atualidade, continuamos vivendo neste “entre-lugar” e a ele nos afeiçoamos pois dele somos fruto, como são frutos os indivíduos em qualquer lugar cultural. Vivemos em uma sociedade, no seu geral, cujo desempenho social está constantemente comprometido em função dos problemas de estruturação de suas múltiplas identidades que, em princípio, são um patrimônio inestimável, mas, em seu conjunto, causam uma série de problemas decorrentes da má gestão em seu coletivo e da falta de incentivo à autogestão em seu particular. É importante lembrar, embora de forma rápida, a conformação prévia das relações sociais entre os grupos que compunham a sociedade americana antes do 1500: do que sabemos, a segmentação cultural já existia como semente ou já em exercício mediante a estruturação social no sistema tribal, onde o sistema nacional se fazia presente, embora embrionário, nos grupos lingüísticos, não propiciando uma visão de identidade a termo mais geral. As questões de poder entre os portugueses e espanhóis, numa distribuição de espaços que apenas contemplava interesses particulares de grupos internos à conquista, só acrescentou elementos para a construção de uma história de “entre-lugar”. No sentido da organização de uma identidade nacional, ao menos no território brasileiro (descontando-se as tentativas locais que são fruto de insurreição à estrutura central de poder), houveram tentativas com a vinda da missão francesa e, após, no período a regência, na semana da arte moderna, talvez no período Vargas e durante a ditadura militar de 1964. Para meu entendimento, a ausência de um trabalho mais profundo, melhor estruturado e com continuidade, resulta na fragilidade das estruturas que constituem a identidade brasileira enquanto povo, na aceitação fácil dos produtos culturais externos ao grupo e na falta de consciência de uma ancestralidade, daí resultando o paradigma da jovem nação que de tão jovem já possui praticamente 500 anos. Essa questão, em si, merece aprofundamento e estudo específico, o que não pretendemos neste momento. Visão negativa do passado Pretendo, na seqüência, descrever situação que ilustra, embora parcialmente e de forma localizada, o que apontamos anteriormente no texto. O que ora descrevo, aconteceu em São Francisco de Paula – RS, no ano de 1996, se bem que a ação, em si, é decorrente de observações e tratativas anteriores, em trabalho conjunto com o psicólogo Antônio Jane Cardoso; essa situação preliminar, a que me refiro, dava conta da existência de uma tradição local que descrevia uma suposta maldição lançada por um padre sobre a cidade e sua população presente e futura. Sobre esse assunto, o referido profissional levantava a possibilidade da realização de um trabalho na área da psicologia institucional, com o objetivo de desativar os referenciais negativos que constituíam o conjunto da identidade cultural local. O ensejo para a realização dessa tarefa aconteceu no momento em que fui contatado pelo prefeito municipal que objetivava a solução de problema para a fachada da Biblioteca Pública da cidade, no âmbito da linguagem visual. Sugerimos, em função da sua localização (frente para o sul) e ao clima local, a feitura de um painel em alto relevo, o que facilitaria a preservação e conservação do aparato construído; em conseqüência, o prefeito nos solicitou o desenvolvimento de estudo para a obra. No trabalho de elaboração do projeto, recordei das discussões a respeito do lendário local e resolvi por um levantamento rápido para a sua confirmação, o que resultou no surgimento de outras lendas, todas de mesmo fundo negativo, quais sejam: a lenda do gritador, a lenda da noiva de branco, da índia morta, maldição dos porcos (maldição do padre), dentre outras. Em todas, numa análise rápida, se consegue detectar um fundo que remete à relação entre o português colonizador e o índio. Retornamos, nessa questão do lendário, às condições de visibilidade, conforme Eric Landowski (A Sociedade Refletida – Ensaios de sociossemiótica – educ Pontes – 1992), na sua abordagem sobre situações e posições de comunicação, onde o grupo não quer mostrar-se e oculta parte de sua conformação. O lendário é falado em tom negativo e não há incentivo para a sua comunicação a um público que não configure a própria comunidade local. A questão da maldição remete ao conflito existente entre o público e o particular, em determinada sociedade com crise permanente de identidade. No que diz respeito à tarefa solicitada pela prefeitura, em vista das circunstâncias acima expostas, conjugada com uma pseudo liberdade para a criação (se há um contrato qualquer, há sempre uma vontade do demandante que instará pela sua supremacia – pelo menos em algum nível em que o mesmo sinta-se gratificado), optamos por organizar visualmente a proposta, mediante projeto que contemplasse uma iconografia local de forma genérica, mas que, em determinado tempo do discurso, revelasse seu verdadeiro conteúdo. Assim sucedeu e apresentamos o projeto com interpretantes que fossem revelados, posteriormente, a um leitor modelo. Após o recebimento do “de acordo” dado pela administração pública municipal, iniciamos a construção do painel em uma tarefa que contou com a participação de membros da comunidade local e, no momento de sua inauguração, desvelamos o seu inteiro conteúdo. Durante a consecução do projeto, devido ao fato de que a obra se desenvolvia em local público e ao contato com os populares que transitavam pelo local, confirmamos a existência do lendário sobre o qual se baseava o projeto. Torna-se necessário esclarecer que o núcleo da produção de sentido do referido lendário se afirmava na “maldição do padre” ou a “maldição dos porcos” que dava conta de uma maldição lançada por um padre sobre a população que havia se ausentado da missa para conferir a passagem de uma vara de porcos selvagens que passava, naquele momento, nas imediações da igreja. É, também, interessante observar a derivação de sentidos dessa base para outro lendário que se refere ao porco que solta fumaça pelas ventas. Durante a e após a execução da obra, construí uma expectativa quanto ao comportamento da comunidade em relação à peça, na medida em que se tratava de uma espécie de invasão sobre foro íntimo, dizia respeito à privatividade enquanto comunidade vista em sua forma isolada. Felizmente as previsões, em seu aspecto pessimista, não se confirmaram e a comunidade foi bastante receptiva ao projeto. Novo projeto Como prevíamos, o desvelamento de conteúdos, em um momento oficial, provocou um relativo desconforto e algumas autoridades presentes questionaram a validade das bases sobre que se firmava a proposição para o lendário e a conseqüente execução do aparato visual afixado na fachada da biblioteca pública. Decorrência disso, foi acordada a criação de uma comissão composta por vários integrantes da comunidade local que passou a se denominar “Amigos de São Francisco de Paula”, a quem foi atribuída a tarefa de realizar o levantamento de dados e propor encaminhamentos futuros; também participaram da referida comissão o psicólogo Antônio Jane Cardoso e a socióloga Débora Maria V. de Barros. A Prefeitura Municipal, através da sua Secretaria de Educação, comandada pela educadora Claudete Rabelo, realizou levantamento/pesquisa junto a alunos e pais da rede municipal de ensino, cujo resultado foi o coligimento de dados sobre uma gama mais ampla de aspectos que compunham o lendário local. A comissão conseguiu acesso especial ao livro tombo da igreja matriz de São Francisco de Paula quando ficou confirmada a existência de uma anotação, com data de 19 de abril de 1931 em que o pároco da época fez referência à maldição dos porcos. Na seqüência, ficou acertada a construção de um monumento na praça frontal à igreja matriz da comunidade católica e foi programada a realização de um culto ecumênico em que se propunha a realização de um ritual para a eliminação da referida “maldição do padre” sobre a cidade e população. Como integrante dos “Amigos de São Francisco de Paula” e responsável pela elaboração do projeto fiquei em dúvida sobre qual linha de procedimento adotar para a produção de sentidos que se adequasse àquela demanda específica . Optei pela execução de um São Francisco de Paula que abençoasse a cidade, já que o processo se vinculava a uma cerimônia coletiva cujo fim específico era desmanchar elementos negativos oriundos de uma maldição que derivaria, por antinomia, em bênção. Juntamente com a peça principal (a imagem do santo) deveriam ser instaladas uma série de peças menores que partiriam de pedras colocadas estrategicamente, sendo que as peças se desdobrariam até se conformarem como figuras humanas postadas próximas e em relação com a figura central, em uma metáfora ao desdobramento de processos enquanto sentidos de “lapidação” de uma determinada comunidade. O projeto foi assim aprovado; entretanto, do conjunto previsto apenas foi executada a figura central. Uma questão de visibilidade Na época, também me interessei pelo levantamento de dados para um trabalho de organização de uma identidade cultural, autóctone, o que decorreu na proposta sobre a criação de um artesanato típico para, além de questões tão diversas como a econômica, reforçar ações em uma direção que dimensionassem e estruturassem aspectos da cultura local. Embora, à época, não dispusesse de maior clareza quanto a questões relativas à sociossemiótica, já percebia, em algum estado subjetivo, a necessidade de se trabalhar com os processos da necessária visibilidade, enquanto ferramental para a existência e organização de uma determinada “identidade cultural”. Claude Lévi-Strauss em Arte, Linguagem, Etnologia – entrevista com Lévi-Strauss, de Georges Charbonnier, já instava por situações de aparecimento, de saber contar de si para dar sentido a determinada presença no mundo, como sendo atribuição do âmbito da cultura o aparelhamento do indivíduo ou grupo com a bagagem indispensável para a realização da inevitável troca decorrente dos atravessamentos que acontecem em todo fazer humano e na constituição de grupos humanos específicos, em relação aos demais. Naquela entrevista, o antropólogo fala da necessidade de se estabelecer clareza para os índices organizados por determinada cultura, o que facilitaria, em nível pessoal, a organização dos seus referenciais, em suma: possibilitar ao indivíduo produzir os referentes que digam de si e o tornem mais amplo no universo do humano (em determinado universo do humano), produzindo, além disso, a consciência individual desse fato. Na obra, Lévi-Strauss se refere à complexidade das sociedades, onde cada sociedade, além de ser um elemento diverso das demais estruturas, comporta diferentes graus de complexidade – mesmo porque ela é refletida na subjetividade individual e essa reflexão provoca atravessamentos que interferem na constituição de si mesma (a sociedade). Fala, também, da função do rito como elemento minimizador de diferenças, onde ele é a forma mais elementar de exercício da unanimidade (e eu me pergunto: seria essa a base de todo o contrato social?). Cita, ainda, a organização da identidade como fator indispensável para o pertencimento ao movimento que produz a ordem: a cultura. Todas as questões que se referem ao reconhecimento ou estranhamento para determinado produto da cultura, tanto como entende Landowski ou como para Lévi-Strauss, são preocupações que perpassam o pensar sobre determinada atividade como a da formação de um artesanato típico ou em uma intervenção da forma como a que foi realizada em São Francisco de Paula. Ela pode ser entendida de forma isolada, mas não podemos ignorar as conexões necessárias para que adquira autonomia de personalidade e produza sentidos idênticos, especialmente os voltados para a estruturação da própria questão local, sendo, ainda, utilizada como mecanismo para a visibilidade do grupo em questão. Atualmente estamos desenvolvendo entendimentos no sentido de rearticulação do grupo “Amigos de São Francisco de Paula”, tendo como primeiro objetivo uma análise das conseqüências da atividade desenvolvida naquela época, com o necessário distanciamento temporal dos fatos que foram configurados e, em segunda opção, ampliar o nível de atividades que tenham como meta estender os objetivos iniciais, se assim for considerado pelo seus antigos e novos integrantes. Há, também, uma demanda pela construção de um novo monumento para ser instalado em praça pública e nossa intenção é a de que a conformação desse projeto aconteça como decorrência recontextualizada das atividades que forma desenvolvidas no ano de 1996. Está em minha intenção a feitura de um projeto que se configure pelo viés das questões da sociossemiótica, assim como a entende Eric Landowski.
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